Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Amor são rosas

da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das tuas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração

o amor são rosas


sábado, 16 de abril de 2016


Protege-te, P

Não te deram o amor devido, mas não te levaram o coração...

A P tem 14 anos e os seus progenitores não puderam ou não quiseram ser pais...vivia com os avós...Na última aula disse-me a turma que a P não estava, porque ia para um colégio interno...Duvidei! A P estará doente, a P não quis vir, a P não quer "apanhar seca", a P  não quer ouvir os sermões dos professores, pensei...Nada disso...Hoje a aula foi triste...a P não volta mais...mas a melhor amiga da P entregou-me uma carta que a P fez questão de me deixar e como o meu coração sempre me acompanha...chorei! 
Abençoada sejas, P, qualquer que seja a instituição em que estejas! A vida é dura! Tu já o sabes! Mas esforça-te por favor, para que ela não se torne ainda mais dura!



















"Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”"
Bíblia, Lucas 15:7

quarta-feira, 6 de abril de 2016


Bem-aventurados

bem-aventurados os puros os simples e os humildes
porque o seu sorriso traz paz e confiança
bem-aventurados os corajosos
porque se libertam na luta
bem-aventurados os injustiçados e os que sofrem
porque se tornam fortes e bons
bem-aventurados os que amam e os que perdoam
porque à sua volta em círculos unem todas as mãos
bem-aventurados os generosos
porque renunciam da riqueza  chamando os pobres a si
bem-aventurados sejam todos os homens
que iluminam o mundo com o seu brilho
e fazem do sonho e da conquista o seu lema
uma canção para renascer
porque para eles foi feita esta Terra

GA












Pieter Bruegel - A Torre de Babel



segunda-feira, 21 de março de 2016

A poesia dá-nos a beleza dos dias tristes

Por coincidência, ou talvez não, foi no dia do pai que recebi o 2º prémio da VI edição do concurso "Poesia na Biblioteca" promovido pela Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova e como não podia deixar de ser dediquei este prémio ao meu pai que, se estivesse vivo, ficaria muito orgulhoso dele...
Agradeço à minha amiga Ana Ruas a companhia e a caixinha dos bolos. Foi um bom momento!


as árvores já não gostam dos homens
porque eles atraiçoaram-nas
adiantando os relógios malditos
ao encontro suicida da apoteose final
aliciante cinzenta e indistinta
os pássaros foram fazer ninhos
nas nuvens negras 
as crisálidas apodreceram no porão 
dos navios abandonados
onde naufragaram os desejos
das sete virgens que sonharam
com paraísos e felicidade infinita
veio um deus maldito
sacudir os frutos das árvores
que apodreceram nas searas
onde não nascem papoilas
as montanhas abriram-se
formando túneis vazios
as casas ardem de febre
porque os homens têm o betão 
o níquel a prata e o ouro 
por dentro das veias e dos músculos
e as crianças que brincavam dentro deles 
adormeceram para sempre
agora as árvores estão velhas e cansadas
viram as costas aos homens e adormecem zangadas
num sonho agitado e perturbador de cavalos a galope
e crianças a brincar com ferro forjado
no céu uma caneta acusadora sentencia
mas o discurso é uma metáfora esquecida
o tempo é para mastigar devagarinho
como pão com manteiga à sombra das árvores 
que gostam de contar histórias aos homens 
da terra virgem a brincar 
com bonecas rosadas de puxos 
os relógios também estão cansados
o tempo está velho
e definha debaixo da abóbada celeste

GA













































segunda-feira, 14 de março de 2016


Homenagem às gentes do meu bairro

Bairro

Gosto do meu bairro onde vivem
as mesmas pessoas há décadas
e transportam consigo o rosto dos tempos,
as rugas do que aconteceu com elas
e comigo e com todos.
O  meu bairro que tem ecos de silêncio
o meu bairro que não é meu, que é dele
e do outro e de ninguém.
O meu bairro vulgar onde nada acontece
onde só por vezes alguém deixa de existir
sem deixar de ser.
O meu bairro onde não cabe
o acontecimento de uma reportagem
e que por isso mesmo é bonito.
O meu bairro é velho, é pobre, é mundano,
é banal, vulgar,
mas tem marcas da nossa identidade
de sermos nós por dentro e por fora
de cabermos inteiros num “bom-dia!”
acompanhado de um sorriso redondo.
Comungo esta partilha e esta magia
com os outros
enquanto caminhamos diariamente
para o futuro envelhecendo sabiamente.

GA




















Flores de ginja no quintal da minha casa do bairro 

domingo, 14 de fevereiro de 2016


Credulidade

os homens às vezes são puros como crianças a comer um gelado
e acreditam nos deuses que povoam as manhãs de reflexos dourados
e que cantam canções de embalar para os bichos adormecerem
na lentidão infinita do calor dos dias
os homens afastam com as suas melopeias os monstros
que vão ensurdecer e enegrecer outras paragens
para os deixarem sonhar de um prazer prolongado
enquanto o gelado se derrete
as tardes evolam-se e os homens crêem na duração do silêncio
na inteireza absurda da verdade
na paz absoluta de qualquer porto seguro
e os silvos que se ouvem ao longe e ameaçam os ares
dissolvem-se por dentro do açúcar e do chocolate
e do canto dos homens e dos deuses
cheira a plenitude
quando às vezes os homens são puros como crianças a comer um gelado
e os homens nos andaimes incendeiam o seu coração apagado
gritando ao vento melodias em que nunca pensaram

adoecendo de prazer













quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Mural concluído

Finalmente, após alguns dias, entremeados de chuva e sol, o artista Violant terminou o seu mural na casa em ruínas que serviu de abrigo a uns casais de nómadas que por ali passaram.
Vejam como ficou bonito!






































quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016


Violant

Esta semana foi positiva.
Conheci pessoalmente Violant (João Maurício, o jovem artista da vila de Riachos).
E porquê? Porque está a pintar um mural, abaixo fotografado, mas ainda incompleto, numa casa "abandonada" ao lado do prédio onde vivo. Tal como mostram as fotos, não resisti à tentação :)
Já tinha publicado o seu mural "Insomnia", que volto a publicar aqui, para que se recordem.
Em baixo coloco ainda um excerto da entrevista que deu ao Ctrl+Alt+RUA.
Violant é licenciado em Artes Plásticas e Multimédia e concluiu já o mestrado.





























«Violant acabou por defender sua tese – item necessário para concluir o mestrado – nas fábricas abandonadas e na companhia dos tais extensores, que começou a usar no verão de 2012, quando ainda estava no primeiro ano de Caldas, e que acabou por lhe apresentar sua nova “paixão”: a grande escala, na qual em pouco tempo já era mestre. “Esse período de fábricas abandonadas foi muito importante. Por serem locais mais reservados, acabou por facilitar essa iniciação, já que não havia inibição ou qualquer falta de confiança por ter que enfrentar o público. Ainda mais para um gajo introvertido. Nem toda gente é extrovertida e gosta de aparecer ou de mostrar o que está a fazer, entende?”, questionou o artista, que, mesmo atualmente, com excelentes obras no currículo, prefere evitar qualquer tipo de conversa no momento do trabalho. “Costumo a colocar os ‘phones’ no ouvido e entrar no meu mundo. Não gosto de ser interrompido com elogios e nem com criticas, até para não embaralhar o andamento da pintura. Os comentários, quase sempre genuínos e espontâneos, ficam para depois, mas sempre faço questão de ouvir e considerar esse retorno”, completou.»



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Mais pássaros

o cetim foi rasgado pelo tempo
e na manhã que não devia ter nascido
os pássaros desiludidos gritaram
assustados pelo deus fingido
que caiu do pedestal
desmascarado
sem brilho e sem sorriso
não desejes entrar no meu poema
antes o que és assim ainda o nada
o mistério por descobrir

e o passo por inventar

GA


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016


Quando os Pássaros Partirem

quando os pássaros partirem
abre as asas
ergue os olhos para a imensidão do azul
e inventa as cores dos pássaros no céu


GA