Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

domingo, 29 de maio de 2016

Mãe

tens os olhos mansos
das lutas de uma vida
os músculos sem força
e o corpo entorpecido
mas o teu sorriso é feliz na dor
e há força na tua esperança inabalável
que não sei de onde vem
obrigo-me a engolir a comoção
perante a tua imensa fragilidade
a vida pesa
como um trapo velho
a humedecer-nos a memória
e o tempo
que escasseia para tanto amor
sabe a solidão
ao distante das vozes do pai e da avó
aos risos da minha infância dormente
à bolacha esmigalhada com pêssego e banana
ao não sei quê do tanto que me deste
o meu coração é grande
mas não tem força para te pegar ao colo
porque preciso
mãe
que me embales outra vez





quarta-feira, 18 de maio de 2016




há dias em que envelhecemos mil anos
basta o sol não se pôr
e os monstros nascerem nas clareiras
vivemos muitas vidas
a lutar dentro de nós
e as dores dessas vidas
gritos suor lágrimas
oração cansaço
o fim do caminho
a esperança esvair-se
como o sangue das veias
e resistimos até novo amanhecer
e o dia clarear de mistérios e dúvidas
de pé continuamos



domingo, 8 de maio de 2016


"The weeping woman"

a janela fechada
uma nesga de sol entre a cortina
lá fora a rapidez o bulício
a multidão desastrada e distraída
cá dentro
o silêncio
os vasos tristes
os quadros de abismos infinitos
os recantos incólumes da casa
na mesa
o tabuleiro de xadrez
o jogo interrompido
a bengala no canto da lareira
a poltrona vazia
a grinalda de flores
da moldura que dói
com o teu sorriso
a morte ri
eu choro

GA





















The weeping woman - Pablo Picasso

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Amor são rosas

da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das tuas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração

o amor são rosas


sábado, 16 de abril de 2016


Protege-te, P

Não te deram o amor devido, mas não te levaram o coração...

A P tem 14 anos e os seus progenitores não puderam ou não quiseram ser pais...vivia com os avós...Na última aula disse-me a turma que a P não estava, porque ia para um colégio interno...Duvidei! A P estará doente, a P não quis vir, a P não quer "apanhar seca", a P  não quer ouvir os sermões dos professores, pensei...Nada disso...Hoje a aula foi triste...a P não volta mais...mas a melhor amiga da P entregou-me uma carta que a P fez questão de me deixar e como o meu coração sempre me acompanha...chorei! 
Abençoada sejas, P, qualquer que seja a instituição em que estejas! A vida é dura! Tu já o sabes! Mas esforça-te por favor, para que ela não se torne ainda mais dura!



















"Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”"
Bíblia, Lucas 15:7

quarta-feira, 6 de abril de 2016


Bem-aventurados

bem-aventurados os puros os simples e os humildes
porque o seu sorriso traz paz e confiança
bem-aventurados os corajosos
porque se libertam na luta
bem-aventurados os injustiçados e os que sofrem
porque se tornam fortes e bons
bem-aventurados os que amam e os que perdoam
porque à sua volta em círculos unem todas as mãos
bem-aventurados os generosos
porque renunciam da riqueza  chamando os pobres a si
bem-aventurados sejam todos os homens
que iluminam o mundo com o seu brilho
e fazem do sonho e da conquista o seu lema
uma canção para renascer
porque para eles foi feita esta Terra

GA












Pieter Bruegel - A Torre de Babel



segunda-feira, 21 de março de 2016

A poesia dá-nos a beleza dos dias tristes

Por coincidência, ou talvez não, foi no dia do pai que recebi o 2º prémio da VI edição do concurso "Poesia na Biblioteca" promovido pela Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova e como não podia deixar de ser dediquei este prémio ao meu pai que, se estivesse vivo, ficaria muito orgulhoso dele...
Agradeço à minha amiga Ana Ruas a companhia e a caixinha dos bolos. Foi um bom momento!


as árvores já não gostam dos homens
porque eles atraiçoaram-nas
adiantando os relógios malditos
ao encontro suicida da apoteose final
aliciante cinzenta e indistinta
os pássaros foram fazer ninhos
nas nuvens negras 
as crisálidas apodreceram no porão 
dos navios abandonados
onde naufragaram os desejos
das sete virgens que sonharam
com paraísos e felicidade infinita
veio um deus maldito
sacudir os frutos das árvores
que apodreceram nas searas
onde não nascem papoilas
as montanhas abriram-se
formando túneis vazios
as casas ardem de febre
porque os homens têm o betão 
o níquel a prata e o ouro 
por dentro das veias e dos músculos
e as crianças que brincavam dentro deles 
adormeceram para sempre
agora as árvores estão velhas e cansadas
viram as costas aos homens e adormecem zangadas
num sonho agitado e perturbador de cavalos a galope
e crianças a brincar com ferro forjado
no céu uma caneta acusadora sentencia
mas o discurso é uma metáfora esquecida
o tempo é para mastigar devagarinho
como pão com manteiga à sombra das árvores 
que gostam de contar histórias aos homens 
da terra virgem a brincar 
com bonecas rosadas de puxos 
os relógios também estão cansados
o tempo está velho
e definha debaixo da abóbada celeste

GA













































segunda-feira, 14 de março de 2016


Homenagem às gentes do meu bairro

Bairro

Gosto do meu bairro onde vivem
as mesmas pessoas há décadas
e transportam consigo o rosto dos tempos,
as rugas do que aconteceu com elas
e comigo e com todos.
O  meu bairro que tem ecos de silêncio
o meu bairro que não é meu, que é dele
e do outro e de ninguém.
O meu bairro vulgar onde nada acontece
onde só por vezes alguém deixa de existir
sem deixar de ser.
O meu bairro onde não cabe
o acontecimento de uma reportagem
e que por isso mesmo é bonito.
O meu bairro é velho, é pobre, é mundano,
é banal, vulgar,
mas tem marcas da nossa identidade
de sermos nós por dentro e por fora
de cabermos inteiros num “bom-dia!”
acompanhado de um sorriso redondo.
Comungo esta partilha e esta magia
com os outros
enquanto caminhamos diariamente
para o futuro envelhecendo sabiamente.

GA




















Flores de ginja no quintal da minha casa do bairro 

domingo, 14 de fevereiro de 2016


Credulidade

os homens às vezes são puros como crianças a comer um gelado
e acreditam nos deuses que povoam as manhãs de reflexos dourados
e que cantam canções de embalar para os bichos adormecerem
na lentidão infinita do calor dos dias
os homens afastam com as suas melopeias os monstros
que vão ensurdecer e enegrecer outras paragens
para os deixarem sonhar de um prazer prolongado
enquanto o gelado se derrete
as tardes evolam-se e os homens crêem na duração do silêncio
na inteireza absurda da verdade
na paz absoluta de qualquer porto seguro
e os silvos que se ouvem ao longe e ameaçam os ares
dissolvem-se por dentro do açúcar e do chocolate
e do canto dos homens e dos deuses
cheira a plenitude
quando às vezes os homens são puros como crianças a comer um gelado
e os homens nos andaimes incendeiam o seu coração apagado
gritando ao vento melodias em que nunca pensaram

adoecendo de prazer













quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Mural concluído

Finalmente, após alguns dias, entremeados de chuva e sol, o artista Violant terminou o seu mural na casa em ruínas que serviu de abrigo a uns casais de nómadas que por ali passaram.
Vejam como ficou bonito!