Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

terça-feira, 28 de junho de 2016




era uma tortura
que ouvia de longe
indo e vindo
persistente e traiçoeira
como um grito sem eco
um perfil indistinto
a modelar pesadamente
angústias quotidianas
apagou-a com um pincel
dentro do seu coração
e criou uma obra de arte
um pedaço de ilusão


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Ao eu – II

Acordo de mim estranha em cada dia
Com o meu ser à minha frente, eu atrás
Quando o apanho ele foge em correria
E esconde-se, volátil e sagaz.

À vinda vem despido de alegria
Quer mãe, mas o meu colo é incapaz.
Aquilo que buscava não havia
E o que queria encontrar não traz.

Que procura o meu ser que em mim não tem?
Desolada pergunto e ele nada diz.
Refeito da ilusão, da vã demanda

Já novamente se vai, não se detém
E eu temo a sua queda de aprendiz
Impotente, só ele me comanda.


Graça Alves, in Cores do Silêncio






domingo, 29 de maio de 2016

Mãe

tens os olhos mansos
das lutas de uma vida
os músculos sem força
e o corpo entorpecido
mas o teu sorriso é feliz na dor
e há força na tua esperança inabalável
que não sei de onde vem
obrigo-me a engolir a comoção
perante a tua imensa fragilidade
a vida pesa
como um trapo velho
a humedecer-nos a memória
e o tempo
que escasseia para tanto amor
sabe a solidão
ao distante das vozes do pai e da avó
aos risos da minha infância dormente
à bolacha esmigalhada com pêssego e banana
ao não sei quê do tanto que me deste
o meu coração é grande
mas não tem força para te pegar ao colo
porque preciso
mãe
que me embales outra vez





quarta-feira, 18 de maio de 2016




há dias em que envelhecemos mil anos
basta o sol não se pôr
e os monstros nascerem nas clareiras
vivemos muitas vidas
a lutar dentro de nós
e as dores dessas vidas
gritos suor lágrimas
oração cansaço
o fim do caminho
a esperança esvair-se
como o sangue das veias
e resistimos até novo amanhecer
e o dia clarear de mistérios e dúvidas
de pé continuamos



domingo, 8 de maio de 2016


"The weeping woman"

a janela fechada
uma nesga de sol entre a cortina
lá fora a rapidez o bulício
a multidão desastrada e distraída
cá dentro
o silêncio
os vasos tristes
os quadros de abismos infinitos
os recantos incólumes da casa
na mesa
o tabuleiro de xadrez
o jogo interrompido
a bengala no canto da lareira
a poltrona vazia
a grinalda de flores
da moldura que dói
com o teu sorriso
a morte ri
eu choro

GA





















The weeping woman - Pablo Picasso

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Amor são rosas

da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das tuas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração

o amor são rosas


sábado, 16 de abril de 2016


Protege-te, P

Não te deram o amor devido, mas não te levaram o coração...

A P tem 14 anos e os seus progenitores não puderam ou não quiseram ser pais...vivia com os avós...Na última aula disse-me a turma que a P não estava, porque ia para um colégio interno...Duvidei! A P estará doente, a P não quis vir, a P não quer "apanhar seca", a P  não quer ouvir os sermões dos professores, pensei...Nada disso...Hoje a aula foi triste...a P não volta mais...mas a melhor amiga da P entregou-me uma carta que a P fez questão de me deixar e como o meu coração sempre me acompanha...chorei! 
Abençoada sejas, P, qualquer que seja a instituição em que estejas! A vida é dura! Tu já o sabes! Mas esforça-te por favor, para que ela não se torne ainda mais dura!



















"Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”"
Bíblia, Lucas 15:7

quarta-feira, 6 de abril de 2016


Bem-aventurados

bem-aventurados os puros os simples e os humildes
porque o seu sorriso traz paz e confiança
bem-aventurados os corajosos
porque se libertam na luta
bem-aventurados os injustiçados e os que sofrem
porque se tornam fortes e bons
bem-aventurados os que amam e os que perdoam
porque à sua volta em círculos unem todas as mãos
bem-aventurados os generosos
porque renunciam da riqueza  chamando os pobres a si
bem-aventurados sejam todos os homens
que iluminam o mundo com o seu brilho
e fazem do sonho e da conquista o seu lema
uma canção para renascer
porque para eles foi feita esta Terra

GA












Pieter Bruegel - A Torre de Babel



segunda-feira, 21 de março de 2016

A poesia dá-nos a beleza dos dias tristes

Por coincidência, ou talvez não, foi no dia do pai que recebi o 2º prémio da VI edição do concurso "Poesia na Biblioteca" promovido pela Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova e como não podia deixar de ser dediquei este prémio ao meu pai que, se estivesse vivo, ficaria muito orgulhoso dele...
Agradeço à minha amiga Ana Ruas a companhia e a caixinha dos bolos. Foi um bom momento!


as árvores já não gostam dos homens
porque eles atraiçoaram-nas
adiantando os relógios malditos
ao encontro suicida da apoteose final
aliciante cinzenta e indistinta
os pássaros foram fazer ninhos
nas nuvens negras 
as crisálidas apodreceram no porão 
dos navios abandonados
onde naufragaram os desejos
das sete virgens que sonharam
com paraísos e felicidade infinita
veio um deus maldito
sacudir os frutos das árvores
que apodreceram nas searas
onde não nascem papoilas
as montanhas abriram-se
formando túneis vazios
as casas ardem de febre
porque os homens têm o betão 
o níquel a prata e o ouro 
por dentro das veias e dos músculos
e as crianças que brincavam dentro deles 
adormeceram para sempre
agora as árvores estão velhas e cansadas
viram as costas aos homens e adormecem zangadas
num sonho agitado e perturbador de cavalos a galope
e crianças a brincar com ferro forjado
no céu uma caneta acusadora sentencia
mas o discurso é uma metáfora esquecida
o tempo é para mastigar devagarinho
como pão com manteiga à sombra das árvores 
que gostam de contar histórias aos homens 
da terra virgem a brincar 
com bonecas rosadas de puxos 
os relógios também estão cansados
o tempo está velho
e definha debaixo da abóbada celeste

GA













































segunda-feira, 14 de março de 2016


Homenagem às gentes do meu bairro

Bairro

Gosto do meu bairro onde vivem
as mesmas pessoas há décadas
e transportam consigo o rosto dos tempos,
as rugas do que aconteceu com elas
e comigo e com todos.
O  meu bairro que tem ecos de silêncio
o meu bairro que não é meu, que é dele
e do outro e de ninguém.
O meu bairro vulgar onde nada acontece
onde só por vezes alguém deixa de existir
sem deixar de ser.
O meu bairro onde não cabe
o acontecimento de uma reportagem
e que por isso mesmo é bonito.
O meu bairro é velho, é pobre, é mundano,
é banal, vulgar,
mas tem marcas da nossa identidade
de sermos nós por dentro e por fora
de cabermos inteiros num “bom-dia!”
acompanhado de um sorriso redondo.
Comungo esta partilha e esta magia
com os outros
enquanto caminhamos diariamente
para o futuro envelhecendo sabiamente.

GA




















Flores de ginja no quintal da minha casa do bairro