Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

domingo, 4 de setembro de 2016


embarco novamente nas trincheiras da guerra
de tantos sorrisos beligerantes         
de armas em punho
o sol habitado de medo
esbate-se por entre o fumo dos bombardeamentos
minando monstruosamente
a inútil cautela das tropas
as ofensivas militares
provocam frio no estômago
rebentam por toda a parte
granadas de violência e ódio
os brados precipitam-se nas nuvens
e desmoronam-se contra o chão
a vida presa por um fio
sem tréguas nem oásis
a luta diária é um arco-íris
uma miragem

a baloiçar entre o céu e a terra


domingo, 7 de agosto de 2016



esgota-se o tempo
pelos beirais das casas
a albergar ternuras insuspeitas
chega a manhã
e despes as asas
pesam-te os ombros
cansados dos incontáveis sonhos
náufragos nas mãos da noite
espraias-te por lugares
habitados de vazio
refugiado em cada amanhecer
tens lágrimas nas mãos
e brilho nos olhos
de inventar paraísos
pesam-te os dias
numa estrada longa
em que não encontras o sentido
cais
não és frágil
és só um deus
a tentar não ser

GA



quinta-feira, 7 de julho de 2016


há em mim um inimigo
por nascer
e em ti uma arma por içar
há flechas doces a sair dos meus olhos
alvoradas indistintas no teu sorriso
e paisagens feéricas no calor da tua voz
temos armas embainhadas por dentro do sangue
e flores irreais à superfície da pele
por entre estes beijos ousados
falta saber quem somos

GA




















Edição 2016 das Pastinhas da Casa de Infância Dr. Elysio de Moura, onde se incluem alguns dos meus poemas inéditos.
A foto de Coimbra foi tirada hoje de manhã da varanda da Casa da Infância de onde se vê a outra margem de Coimbra, uma vista soberba!



Apontamento histórico:

(texto retirado do site da Universidade de Coimbra, Notícias UC)

"A Venda das Pastas é uma tradição com mais de 70 anos que acontece sempre durante a Queima das Fitas, com o objetivo de ajudar a Casa de Infância Doutor Elysio de Moura. Ao longo do ano, as crianças da Casa de Infância preparam réplicas em miniatura das pastas dos estudantes. Reproduzidas com as cores das faculdades da Universidade de Coimbra, as “pastinhas” guardam poesia.

O uso da pasta surge no seguimento de uma outra tradição. Quem o afirma é o presidente da Casa de Infância Doutor Elysio de Moura. Manuel Ferro conta que “a Queima das Fitas vai entroncar na tradição da queima da sebenta há cento e tal ano atrás”. A sebenta, que era queimada no final do curso, era muitas vezes guardada “em pastas atadas com fitas”, conta o responsável. “É daí que surgem as fitas das pastas de hoje”, revela. Ao longo do tempo, as fitas tornaram-se um “símbolo da vida académica” e, de acordo com Manuel Ferro, “a questão de se escolher a pastinha foi precisamente por causa do valor simbólico que a pasta tem para a vida académica”.

A iniciativa é, atualmente, uma forma de angariar verbas, que vão direcionadas para as salas de lazer da Casa de Infância Doutor Elysio de Moura".

Reportagem realizada por Ana Zayara, estudante de Jornalismo na FLUC, e Rosana Vaz, estagiária Projeto Imagem, Media e Comunicação da Universidade de Coimbra.

terça-feira, 28 de junho de 2016




era uma tortura
que ouvia de longe
indo e vindo
persistente e traiçoeira
como um grito sem eco
um perfil indistinto
a modelar pesadamente
angústias quotidianas
apagou-a com um pincel
dentro do seu coração
e criou uma obra de arte
um pedaço de ilusão


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Ao eu – II

Acordo de mim estranha em cada dia
Com o meu ser à minha frente, eu atrás
Quando o apanho ele foge em correria
E esconde-se, volátil e sagaz.

À vinda vem despido de alegria
Quer mãe, mas o meu colo é incapaz.
Aquilo que buscava não havia
E o que queria encontrar não traz.

Que procura o meu ser que em mim não tem?
Desolada pergunto e ele nada diz.
Refeito da ilusão, da vã demanda

Já novamente se vai, não se detém
E eu temo a sua queda de aprendiz
Impotente, só ele me comanda.


Graça Alves, in Cores do Silêncio






domingo, 29 de maio de 2016

Mãe

tens os olhos mansos
das lutas de uma vida
os músculos sem força
e o corpo entorpecido
mas o teu sorriso é feliz na dor
e há força na tua esperança inabalável
que não sei de onde vem
obrigo-me a engolir a comoção
perante a tua imensa fragilidade
a vida pesa
como um trapo velho
a humedecer-nos a memória
e o tempo
que escasseia para tanto amor
sabe a solidão
ao distante das vozes do pai e da avó
aos risos da minha infância dormente
à bolacha esmigalhada com pêssego e banana
ao não sei quê do tanto que me deste
o meu coração é grande
mas não tem força para te pegar ao colo
porque preciso
mãe
que me embales outra vez





quarta-feira, 18 de maio de 2016




há dias em que envelhecemos mil anos
basta o sol não se pôr
e os monstros nascerem nas clareiras
vivemos muitas vidas
a lutar dentro de nós
e as dores dessas vidas
gritos suor lágrimas
oração cansaço
o fim do caminho
a esperança esvair-se
como o sangue das veias
e resistimos até novo amanhecer
e o dia clarear de mistérios e dúvidas
de pé continuamos



domingo, 8 de maio de 2016


"The weeping woman"

a janela fechada
uma nesga de sol entre a cortina
lá fora a rapidez o bulício
a multidão desastrada e distraída
cá dentro
o silêncio
os vasos tristes
os quadros de abismos infinitos
os recantos incólumes da casa
na mesa
o tabuleiro de xadrez
o jogo interrompido
a bengala no canto da lareira
a poltrona vazia
a grinalda de flores
da moldura que dói
com o teu sorriso
a morte ri
eu choro

GA





















The weeping woman - Pablo Picasso

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Amor são rosas

da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das tuas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração

o amor são rosas


sábado, 16 de abril de 2016


Protege-te, P

Não te deram o amor devido, mas não te levaram o coração...

A P tem 14 anos e os seus progenitores não puderam ou não quiseram ser pais...vivia com os avós...Na última aula disse-me a turma que a P não estava, porque ia para um colégio interno...Duvidei! A P estará doente, a P não quis vir, a P não quer "apanhar seca", a P  não quer ouvir os sermões dos professores, pensei...Nada disso...Hoje a aula foi triste...a P não volta mais...mas a melhor amiga da P entregou-me uma carta que a P fez questão de me deixar e como o meu coração sempre me acompanha...chorei! 
Abençoada sejas, P, qualquer que seja a instituição em que estejas! A vida é dura! Tu já o sabes! Mas esforça-te por favor, para que ela não se torne ainda mais dura!



















"Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”"
Bíblia, Lucas 15:7