Fiz este poema aos 9/10 anos. Era a minha visão de criança e do mundo naquela altura, parecido, mas muito diferente do de hoje. Coimbra era uma aldeia. Não havia internet, nem telemóveis, nem computadores. Televisões, poucas. Não tinha noção das guerras, nem do ódio. No bairro onde cresci havia zaragatas, mas também interajuda. Por exemplo, emprestar um serviço de jantar, a alguém que se ia casar. Brincávamos livremente nas ruas, a correr, mas sem ser contra o tempo. Os carros eram escassos. Nem parece verdade, pois não? Tínhamos pouco, mas tínhamos muito. Havia Amor e Solidariedade. Hoje temos tudo e falta-nos sempre alguma coisa.
Cores do Silêncio
Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
quinta-feira, 23 de outubro de 2025
Até sempre, Dr. Laborinho Lúcio!
Teve um perfil invulgar. Destaco principalmente a generosidade e a humanidade com que pautou a sua vida, valores inalienáveis de quem luta por um mundo melhor.
Devo-lhe a escrita do texto para a contracapa do meu livro "Memórias de Papel".
Descanse em paz, OBRIGADO e até sempre, Dr. Laborinho Lúcio.
Graça Alves
domingo, 25 de junho de 2023
O Senhor Biedermann e os Incendiários | Projeto A Meu Ver
Em jeito de rescaldo e ainda com as emoções ao rubro, um agradecimento enorme a estas pessoas lindas que comigo fizeram parte desta equipa maravilhosa, o elenco de
O Senhor Biedermann e os Incendiários | Projeto A Meu Ver, evento dinamizado pela Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra.
Algumas destas pessoas, que habitualmente rotulamos de diferentes, por terem deficiência visual, são muito melhores que muitas em muitos aspetos, a fazer tantas coisas boas e úteis à sociedade. Tão autónomas, tão ricas, tão inspiradas, tão cheias de vontade e tão autênticas e sem filtros. Que caminhada tão enriquecedora que fizemos juntos!
terça-feira, 25 de abril de 2023
25 de Abril
Passados 49 anos do dia que nos trouxe a ansiada
Liberdade, atravessamos um tempo estranho!
É inegável que temos de pensar antes de abrir a boca,
sobretudo para não magoar os outros, mas parece-me que neste tempo corrente,
inconstante, instável e frágil somos agora obrigados a pensar muito mais que
antes. As sensibilidades estão ao rubro e quase tudo é assumido como um ataque
às liberdades individuais. Há, por um lado, a liberdade de acusar, sem
critério, tudo o que se quer e, por outro lado, a liberdade de expressão
condicionada e ao serviço de más interpretações. E os cravos lentamente vão
ficando arroxeados! De repente, temos de nos acautelar para falar, para olhar,
até para ouvir!
Comemoramos a incontestável liberdade política que
conhecemos, admiramos e aplaudimos e que nos deu um sem número de direitos, mas
não poderemos jamais esquecer-nos, em primeiro lugar, dos nossos deveres.
Onde acaba a minha liberdade e começa a do outro? Perdemos
a capacidade de separar o trigo do joio? Não estaremos, de certo modo, a perder
a liberdade? E o bom senso, em que campo de Abril se perdeu?
domingo, 9 de abril de 2023
Tempo
de Páscoa.
Depois
das grandes chuvas, o chão cobria-se de flores miúdas e de verde. A geada
abandonava as ervas dos passeios de terra e os telhados das casas. A Natureza renovava-se
num êxtase de cores pelos prados e as crianças viviam mais felizes, perdendo-se
no meio de corridas e gritos. A roupa branca esvoaçava nos varais improvisados
de rua, alguma ficava a corar ao sol nos arbustos, espingalhada de vez em
quando, com água de um alguidar, pelas mãos diligentes da avó, para que nunca
secasse. A roupa era lavada no grande tanque de cimento que servia para os meus
banhos, quando o tempo começava a aquecer. Os carros de rolamentos voltavam à
rua, precipitando-se a grande velocidade pelas descidas…
Sente-se o cheiro a mirra e a
incenso, à medida que o padre abana o incensório na direção dos ramos que
levamos à igreja para benzer. A procissão estende-se a perder de vista. Fazemos
vénias no meio de oliveira, alecrim, louro, palma, flores e muita cor. Na missa
cantamos e nos momentos de silêncio e recolhimento há o respeito em que se pede
saúde, paz para o mundo e perdão dos pecados. Há fé nos rostos, algumas
lágrimas, esperanças e sorrisos. Harmonizamo-nos. Deus é só um e é para todos.
No Domingo a seguir
apanhávamos hastes de ramos de árvores e flores que desfolhávamos para pôr nas
entradas das casas. O padre, assim, sabia que podia entrar ali com a cruz para
beijarmos. Ouve-se a sineta ao longe, há quem tente adivinhar se está longe ou
perto, ou mesmo em que casa já está. Em cima da mesa havia uma laranja, em cima
dela cinco escudos e um envelope branco com dinheiro para a igreja. Alguns
doces. A toalha era branca e de renda, daquela que a mãe fazia nas tardes
longas de domingo. Muitas pessoas acompanhavam o padre e iam de casa em casa,
onde se partilhava bebida e comida. O bairro vestia-se com as suas melhores
roupas para celabrar a Ressureição de Cristo e das almas.
Era um tempo de interação e
amizade em tempo real, de beijos e abraços, de bom-dia, de desculpe, de
obrigado e de até já.
Que não se percam os valores!
segunda-feira, 27 de março de 2023
Dia mundial do Teatro
Não deixem as cadeiras vazias.
Façam lotar as plateias.
Larguem por instantes os telemóveis e sintam, oiçam, vejam. Não é virtual. É a realidade sem filtros a mostrar a "essência da Humanidade, a essência do ser humano".
Façam os atores sujar muita roupa.
Batam muitas palmas.
Sintam-se agradecidos pelas suas vénias. E saiam, quase em silêncio, como de um templo sagrado.
Certamente o pano voltará a abrir.
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| Casa Municipal do Teatro - Coimbra |
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| Casa Municipal do Teatro - Coimbra |
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
Porque fazer mal aos outros é o mínimo exigível, e há tanta maldade no mundo e em certos seres humanos, escrevi um texto sobre a bondade. Aproveitei a recente morte de Jorge Sampaio para o fazer. O artigo saiu no jornal Público de ontem, dia 26 de setembro. Fiquei feliz!
A bondade
No passado dia 10 de setembro morreu Jorge
Sampaio, que completaria 82 anos de idade no dia 18 de setembro. Foi político e
marcou gerações, ascendeu a um dos mais altos cargos da nação. Fez História.
Penso que, no mundo atual, a ideia que o cidadão
comum mais liga aos políticos é a de corrupção. É comum ouvir-se dizer
"eles querem é tacho" ou “poleiro”; que são inimputáveis, que
"se fôssemos nós", iríamos logo para a prisão e outras expressões
dentro do género que traduzem que o político não gere de forma capaz os
destinos do país, porque tem em conta, em primeiro lugar, as suas prioridades e
interesses pessoais.
Mas Sampaio era político e era bom. Foi, aliás, a
expressão mais comum entre os analistas e os entrevistados "morreu um
homem bom". Não se viu uma multidão nas ruas, como observou levianamente
um analista, fazendo por minimizar a popularidade deste político, mas não seria
certamente necessário ir para a rua, para que o povo lhe pudesse prestar homenagem,
ainda mais na situação pandémica atual. Por mim, fiquei a ver as cerimónias
através do televisor, com o devido respeito e com a lágrima ao canto do olho,
especialmente na parte do discurso dos filhos, ao dedicarem à mãe as suas
últimas palavras "estamos aqui contigo e sempre para ti".
A bondade ficará colada, talvez para sempre, à
imagem de Sampaio. Mas que importância tem a bondade no mundo em que vivemos?
Qual o lugar que lhe concedemos num mundo movido pelo lucro financeiro e pelos
interesses pessoais, pela ganância e pelo oportunismo? Não tem, para a maioria
das gentes, importância nenhuma, e a ter lugar, será sempre e apenas um lugar
secundário e acessório.
Para que a bondade tivesse no mundo o lugar a que
tem direito, seria necessário pensarmos que o bem comum deveria ser a nossa
prioridade, porque o bem comum é também o nosso bem. Os políticos têm
responsabilidade na quota-parte da bondade que dão ou deveriam dar ao mundo?
Têm. E nós? Também, por menor que seja a contribuição.
O melhor para os outros será darmos-lhes sempre o melhor de nós e dar o melhor de nós será sempre o melhor para nós e para todos.
Graça Alves
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Olhar é bom, saber ver ainda é melhor.
Andamos durante anos alheados, desatentos,
imersos em outros mundos que a idade nos impõe. E depois, quando finalmente
decidimos estar atentos, acordar e ver à nossa volta, ouvimos a Natureza a
pedir-nos um olhar, uma reverência, um agradecimento, uma homenagem. Centro a
minha atenção no espaço circundante. O comboio está cheio de gente, mas não me
disperso. De pé, entre duas carruagens, num lugar não suposto, encostada à
grade de ferro que limita o acesso à escada de saída, sorvo a plenos pulmões a
vida, segundo a segundo. Quero sentir o ar veloz a bater-me na cara. Contemplo
o espetáculo dos múltiplos verdes e azuis à minha frente, admiro os mistérios
da Natureza, calculo as dezenas de
histórias guardadas por estes vales e montanhas, segredos de vidas árduas, traçadas
nos meandros da sorte e do destino. São quilómetros de vinhas em socalcos a
perder de vista. Íngremes encostas, onde as oliveiras, apoiadas em solos de
xisto, também fazem cor. O rio passa largo, sereno e indiferente, a ensinar-nos
que a imensidão não é nossa. O silvo da locomotiva 0186, construída em 1925, atroa
os ares. As rodas chiam sobre os carris. Das margens, há quem nos acene. Sinto
um respeito solene por isto tudo e obrigo-me ao silêncio, como se estivesse no
interior de uma imponente e imensa catedral.
terça-feira, 22 de dezembro de 2020
Tempo de Natal
Queridos amigos:
Natal
Montras grinaldas prendas vai e vem
Doces canela fogo a crepitar
Fitas brilhantes
música também
Presépios e
árvores a engalanar
Bem perto há
fome e a guerra se mantém
Uns sem abrigo
e sonhos por sonhar
Chora a
manjedoura pura em Belém
Do egoísmo e
hipocrisia a alastrar
Veio simples e
nu o nosso Rei
O menino já
nasceu é Natal
Trouxe-nos paz
e um Amor sem igual
Porém o homem
inventa outra lei
Da injustiça e
de tudo o mais que há
Outro Deus p`ra
nos salvar não virá
Graça Alves
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sábado, 9 de maio de 2020
"Ó Coimbra do Mondego e dos amores que eu lá tive
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| A minha capa |



















