Caminhos

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Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

JANELAS

Hoje ao passar por uma rua pacata da minha cidade, detive-me nesta janela. Gosto de janelas, que tal como as portas, são passagens para o exterior, para o mundo. É por dentro da minha janela e para lá da minha janela que escrevo e me inspiro. À janela esperamos ver, com o nosso olhar indiscreto, os interiores das casas, quando não há cortinas que resguardam dos olhares; vasos com flores, de preferência sardinheiras de cores fortes; velhinhas a apanhar sol e a observar quem passa; e gatos, claro! Esta janela deteve-me, não porque deveria ser de madeira, mas por ter dois gatos, porque gosto de gatos. Ambos amarelos, coincidência que tornou o quadro mais bonito de admirar. Bati no vidro, para captar os olhos do mais molengão e vislumbrei um ligeiro abanar da cortina. Alguém me terá visto e não se mostrou, mas também não me interceptou na indiscrição da foto. Imaginei uma velhinha bonacheirona e bondosa, a viver sozinha na companhia dos dois gatos que lhe alimentam a solidão da velhice, com a ausência de palavras amargas de ingratidão ou cansaço. Imaginei a velhinha sentindo-se prestável para os dois animais, alimentando-os com ternura e mimo. Uma senhora passou na rua, observou a minha atitude e logo encetámos uma conversa curta sobre gatos. A senhora seguiu o seu caminho e cruzou-se com um gato cinzento, sem dono possivelmente, a julgar pela aparência, que mansamente sentado nos olhava. Na rua não estava mais ninguém. Segui também o meu caminho, de alma cheia por um momento tão insignificante, mas tão rico, para mim, de conteúdo. 


10 comentários:

  1. A fotografia está muito engraçada. E gostei do texto.
    Às vezes tenho vontade de ter um gato ou um cão, mas sou demasiado preguiçosa para isso. Acho os gatos simpáticos. São independentes e ao mesmo tempo parecem tão meiguitos.

    (O seu livro está à venda nas livrarias ou pede-se para alguma editora?)

    Continuação de boa semana:)

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    1. Obrigada, Isabel!
      Eu tenho duas gatas, sempre gostei de gatos e penso que dão menos trabalho que os cães. São animais tranquilos!
      Envie-me um mail e tratamos por lá do assunto do livro, pode ser? Obrigada!
      gamialves@gmail.com
      beijinho

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    2. Muito obrigada, Graça, vou mandar então um mail para me dizer como fazer.

      um beijinho:)

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  2. Graça,
    Adorei a tua janela e a história que ela trouxe.
    Beijinhos. :))

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    1. Obrigada, Ana!
      Sou sensível até ao que imagino...
      beijinho :))

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  3. São as pequenas coisas que nos alimentam, que sustentam o nosso edifício interior, que lhe conferem contornos...
    Gostei muito do texto, Graça.

    Um Feliz 2016! :)

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    1. Obrigado, AC! Pois, tem razão, as pequenas coisas são às vezes muito importantes para sustentar o nosso "edifício interior", expressão interessante para o eu de cada um de nós.
      Votos de Feliz Ano de 2016 para si também!

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  4. Todos nós nos avizinhamos! A necessidade que temos de atravessar a linha fronteira, a janela fronteira, para interagir com o outro: “espreitar” no respeito pelo outro. A janela é obstáculo mas também convite, oportunidade de cumprir o que somos. Nos dias que correm em que a privacidade e o abuso se revelam por excesso é no regresso ao abeirar, ao avizinhar que hiatos, buracos negros, solidões e desesperos se esbatem. O exercício dessa necessidade humana é essencial para a manutenção de sanidade mental.
    A Graça Alves partilhou aqui um momento mágico que soube transmitir numa mensagem muito bem escrita.

    Bom ano 2016 com "espreitadelas" gratificantes.

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    1. Gostei do termo "Avizinhamos" que resume todo o seu texto!A solidão é um drama profundo que deve tentar combater-se pelo "regresso ao abeirar".
      Obrigado pelas suas palavras tão bem ditas.
      Feliz 2016!

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