Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

sábado, 28 de maio de 2016

Mãe

tens os olhos mansos
das lutas de uma vida
os músculos sem força
e o corpo entorpecido
mas o teu sorriso é feliz na dor
e há força na tua esperança inabalável
que não sei de onde vem
obrigo-me a engolir a comoção
perante a tua imensa fragilidade
a vida pesa
como um trapo velho
a humedecer-nos a memória
e o tempo
que escasseia para tanto amor
sabe a solidão
ao distante das vozes do pai e da avó
aos risos da minha infância dormente
à bolacha esmigalhada com pêssego e banana
ao não sei quê do tanto que me deste
o meu coração é grande
mas não tem força para te pegar ao colo
porque preciso
mãe
que me embales outra vez





terça-feira, 17 de maio de 2016




há dias em que envelhecemos mil anos
basta o sol não se pôr
e os monstros nascerem nas clareiras
vivemos muitas vidas
a lutar dentro de nós
e as dores dessas vidas
gritos suor lágrimas
oração cansaço
o fim do caminho
a esperança esvair-se
como o sangue das veias
e resistimos até novo amanhecer
e o dia clarear de mistérios e dúvidas
de pé continuamos



domingo, 8 de maio de 2016


"The weeping woman"

a janela fechada
uma nesga de sol entre a cortina
lá fora a rapidez o bulício
a multidão desastrada e distraída
cá dentro
o silêncio
os vasos tristes
os quadros de abismos infinitos
os recantos incólumes da casa
na mesa
o tabuleiro de xadrez
o jogo interrompido
a bengala no canto da lareira
a poltrona vazia
a grinalda de flores
da moldura que dói
com o teu sorriso
a morte ri
eu choro

GA





















The weeping woman - Pablo Picasso