Caminhos

Caminhos
Porque não pode haver outra forma senão a de existir tal como somos...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

JANELAS

Hoje ao passar por uma rua pacata da minha cidade, detive-me nesta janela. Gosto de janelas, que tal como as portas, são passagens para o exterior, para o mundo. É por dentro da minha janela e para lá da minha janela que escrevo e me inspiro. À janela esperamos ver, com o nosso olhar indiscreto, os interiores das casas, quando não há cortinas que resguardam dos olhares; vasos com flores, de preferência sardinheiras de cores fortes; velhinhas a apanhar sol e a observar quem passa; e gatos, claro! Esta janela deteve-me, não porque deveria ser de madeira, mas por ter dois gatos, porque gosto de gatos. Ambos amarelos, coincidência que tornou o quadro mais bonito de admirar. Bati no vidro, para captar os olhos do mais molengão e vislumbrei um ligeiro abanar da cortina. Alguém me terá visto e não se mostrou, mas também não me interceptou na indiscrição da foto. Imaginei uma velhinha bonacheirona e bondosa, a viver sozinha na companhia dos dois gatos que lhe alimentam a solidão da velhice, com a ausência de palavras amargas de ingratidão ou cansaço. Imaginei a velhinha sentindo-se prestável para os dois animais, alimentando-os com ternura e mimo. Uma senhora passou na rua, observou a minha atitude e logo encetámos uma conversa curta sobre gatos. A senhora seguiu o seu caminho e cruzou-se com um gato cinzento, sem dono possivelmente, a julgar pela aparência, que mansamente sentado nos olhava. Na rua não estava mais ninguém. Segui também o meu caminho, de alma cheia por um momento tão insignificante, mas tão rico, para mim, de conteúdo. 


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

NATAL

a ilusão cresce nas montras
presa nas bolas coloridas das árvores
abundam e brilham corações e estrelas
misturam-se figuras cristãs e pagãs
e há um fio que nos prende
e nos deixa suspensos entre a terra e o céu
e nos leva os nervos
para a terra passageira dos sonhos
natal dos ímpios e dos impuros
que lavam a cara no mar do lucro
Jesus morreu
mas os sinos repicam
os anjos embebedam-se
de verde vermelho e dourado
de fitas e laços
e cantam
glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade
as mãos estendidas dos pedintes
sorriem de esperança
ao dia da sopa quente a chegar


segunda-feira, 30 de novembro de 2015





Há quem defenda que os homens são melhores amigos que as mulheres. No meu caso, os meus melhores amigos são mulheres. Poucas, mas boas, como o milho e como o Vinho do Porto. Como diz a minha amiga Ana Sampaio, psicóloga, nós, as mulheres, suicidamo-nos menos, porque contamos tudo umas às outras. As minhas amigas são assim, suicidam-se a conversar comigo e eu com elas até à exaustão dos nervos e da raiva e depois renascemos outra vez, limpas e fiéis, entre sorrisos e gargalhadas profundas, por isso escrevo isto em sua homenagem.

domingo, 29 de novembro de 2015






Poema de amor ou talvez não...


































às vezes os Domingos são metáforas cinzentas
e sobrevém o nada e o vazio das vozes
com a distância cada vez mais curta entre os amantes
e a faiscar como trovoada seca
no meio da noite fria
que pulsa dentro das veias [...]
ainda que haja brados que te pesem
e se agigantem dentro de ti
e as paisagens interiores se desumanizem
e desfigurem
oculta ainda que
nunca desvendes uma parte do teu mistério
porque dentro dele está o encanto perpétuo
para que o silêncio não seja maior que o silêncio
e não fira os ouvidos nem canse os olhos
como um deserto incolor


Graça Alves

sábado, 28 de novembro de 2015


eu sei que tu existes
embora vivas oculto
nas correntes macias e confortáveis
do veludo diário das manhãs
que te vestem
eu sei que tu existes
porque vejo o teu olhar livre como o vento
a devorar horizontes de luz
e a transportar paraísos platónicos
que colheste nos sonhos da noite
brincas às escondidas
fora de ti mas eu vejo-te
porque não sou lúcida
e a minha demência
vê para além dos meus olhos
quando deixares de te esconder
no silêncio da tua voz
renascerás
e verás de novo reinventar-se
o dia da primavera eterna